segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Reaparecem os dois textos marginais de Magalhães

Em 1995, Manoel Soares Magalhães autoeditou seu primeiro livro de ficção, "Dois Textos Marginais" - um par de contos longos, ambientados em Pelotas.

Nesta quarta-feira (4), ele reapresenta essa obra na 37ª Feira do Livro. Catorze anos depois, o texto não perdeu sua "marginalidade" e até ganhou força literária e sociopolítica.

Ao mesmo tempo que iniciava uma nova fase pessoal como escritor - até então, publicava textos jornalísticos - Manoel também estabeleceu, com este livro, um novo segmento literário em Pelotas, denominado por ele "marginal" (os norte-americanos diriam "subterrâneo").

Coisa pouco sabida é que ele já escrevia textos "alternativos"; só que não os publicava. Também lia outros autores fora da literatura academicamente reconhecida, onde encontrou inspiração.

Rita Pereira, crítica literária de Porto Alegre, observa que, fora autores isolados, somente em 1980 aparece em Pelotas uma literatura questionadora dos valores da "burguesia decadente". É na década de 1990 que essa contestação intelectual ganha corpo, "com a poesia e o teatro marginal de Alberto Liberatto, José Cláudio Teixeira e James Sthall e a literatura underground de Manoel Soares Magalhães" (Diário da Manhã, Caderno de Cultura, 11-07-99). Em literatura marginal pelotense, Adão Fernando Monquelat é o outro autor reconhecido, que posteriormente publicou "Maiêutica" (1997).

Magalhães seguiu escrevendo: O abismo na gaveta (1999), O homem que brigava com Deus (2002) e Vampiros (2008), todos romances situados em Pelotas - o primeiro deles, uma biografia alternativa do poeta Francisco Lobo da Costa, talvez o mais famoso marginal da história de Pelotas.

O exercício de Manoel foi intenso e recompensador, mas a fase marginal ele já a considera terminada, até pelo desgaste pessoal que implicou. Ao conviver com leitores que ficam chocados com a realidade descrita - na mesma cidade cujo lado escuro descreve - o autor já foi tido como obsceno ou pornográfico. Hoje está colhendo os frutos.

Os textos underground (subterrâneos) não são homogêneos, mas em Magalhães os conteúdos giram em torno a profundas frustrações, ódios e terrores, numa Pelotas que se orgulha de refinada cultura e belas artes. Os personagens nem são burgueses nem criminosos, mas pessoas à margem da vida social. O relator é onisciente, num discurso de crônica jornalística. A linguagem, algo relaxada, com o sabor apressado de uma reportagem policial, incorpora o vocabulário e a angústia dos protagonistas.

O primeiro dos dois textos marginais agora republicados chama-se Estoque de doces sonhos. Eis seu primeiro parágrafo.

A música é monótona: ele toca sax sem vontade, como sem vontade vive ultimamente, desde que o senhorio lhe enfiou na cara a conta dos aluguéis devidos, e o impulso – irrefreável impulso – fê-lo sentir-se enraivecido, disposto a saltar à frente e segurar-se ao pescoço do verme, e apartá-lo como se estivesse matando espécime peçonhenta.

O ratinho de óculos é doente, sofre do coração (e lhe parece deveras estranho o micróbio ter coração, pois o não tê-lo seria mais normal), necessitando portanto engolir remédio, pílulas vermelhas ou rosas que carrega consigo no bolso do casaco, e já lhe passou pela cabeça a hipótese de apossar-se das drágeas, e quando o parasita tivesse a crise ele pegaria um martelo e as esfarinharia todas, batendo fortemente, entregue ao riso mais fervoroso, sem dúvida de inclinação ritualística, porque ele não estaria eliminando gente com alma e sensibilidade, mas liquidando perigoso inseto, absolutamente inútil.

Assim é o início de Cheiro de bergamota, de pele juvenil.

Quando a conheceu estava numa pior, mergulhado num deprimente vazio. Patético, porém verdadeiro. Como patética e verdadeira é a vida. Se acaso assim não fosse aquele aposentado de fraque surrado – e alto como coqueiro – charuto apagado entre cerrados lábios não teria morrido como morreu num banco de praça, pardais ciscando à volta, indiferente pipoqueiro à esquerda, alegria de crianças à direita, antes do lusco-fusco que atemoriza as almas em débito com o Demiurgo.

A arte de capa é de Adriano, sobre ilustração de autoria de Carmen Garrez. À venda na Livraria Mundial.
Imagens da web (3-4), F. A. Vidal (2) e Manoel Magalhães (1)

24 comentários:

Anônimo disse...

Acompanho o trabalho de Magalhães há anos. Seu texto é um testemunho da voz dos oprimidos, daqueles que vivem à margem. Não é entretanto um panfleto político. Muito pelo contrário. Sua narrativa é poética - poesia dura das ruas, dos becos. Impossível ser seus textos e sair sem reflexões. Diria mais: a literatura de Magalhães é para ser admirada ou odiada. Não admite meio termo. Por isso sou seu fã há anos, pois entendo literatura assim. No dizer de Kafka: um livro tem de mexer com o leitor. Acaso fique indifente, o ato de ler não se concretizou. Com Magalhães isso não acontece. Bela crônica... Só nao entendi as ilustrações... Zé do Caixão? Por quê?

Francisco Antônio Vidal disse...

Para ilustrar os conteúdos, procurei no Google usando palavras deste texto (rato, inseto, oculos) e escolhi as imagens mais kafkianas (obrigado pela alusão).
Repare que a imagem não é de Zé do Caixão, mas de José Mojica Marins. É comum misturar personagem com autor, mas um é criação do outro. No caso de Magalhães, me parece que ele não exterioriza personagens sinistros internos (como Marins), mas como jornalista dá vida a personagens da vida social real, ficando acima deles, não ao seu lado. Assim, pessoas como Marins vêm a ser os personagens de Magalhães. Zé do Caixão ficaria só como uma caricatura fictícia, até infantil.
Repare que a foto de Marins também está manipulada, para que não pareça real demais.
Outro detalhe interessante de Magalhães é que usa nos títulos expressões amáveis como "doces sonhos", enquanto no texto prefere falar de insetos de óculos, micróbios sem coração e almas atemorizadas, como aproximando-se a um filme de terror.

Anônimo disse...

Que ótimo. Há anos que espero por isso. Magalhães é nossa referência neste gênero de literatura. Só não concordo quando dizes que sua escrita é relaxada, Vidal. Em seu gênero, é muito bem elaborada, super contextualizada. De resto, gostei de sua abordagem. Sabrina.

Francisco Antônio Vidal disse...

"Relaxada" no sentido concreto de frouxo, sem tensão, repassando ao leitor o fluxo apressado das coisas. Não no sentido figurado de falta de disciplina.
"Algo relaxada" no sentido de "um pouco frouxa, não muito", não tão formal como um observador distante e frio, nem tão tranquila como um personagem feliz. Os personagens passam fortes tensões mas sem um controle racional equilibrado, e a linguagem reflete esse misto de ansiedade e soltura, rigidez e relaxamento.

Anônimo disse...

Magalhães tem uma escrita diferenciada, ao nível dos melhores escritores marginais do Brasil, dentre esses Marcelo Mirisola, Aquino e outros. Se fosse editado nacionalmente já teria estourado. Mas, editado na província, fica perdido meio aos best selers de fácil digestão. Belo trabalho, senhor Vidal.

Anônimo disse...

Não acredito, Vidal, Achas a literatura de Manoel sem tensão?! Não acredito!!! Acho, então, que não sabes o que é tensão!!!!!

Francisco Antônio Vidal disse...

Nesta polêmica, acho que o leitor é que não leu a ideia, e ficou com a palavra "tensão". Vamos a ela. Mas não pensemos em preto ou branco.

Tensão psicológica (do conteúdo literário): Magalhães já no primeiro parágrafo marca o ritmo angustiante e o suspense dos relatos; mesmo com altos e baixos a tensão talvez nunca se resolva. É interessante observar que as tensões descritas pelo autor podem parecer simplesmente sociais e fisiológicas, mas são para ele, em essência, existenciais e transcendentes.

Tensão da linguagem (da forma literária): O autor escreve sem a típica tensão de um ensaísta ou editorialista, mas com a agilidade de um repórter policial (os fatos vão rápido como o pensamento), e o relaxamento vem daí, desse introduzir-se na mente (na percepção e nas palavras) dos personagens que brigam com Deus e consigo mesmos. Eles estão em extrema tensão, em situação limítrofe -marginal- entre a vida e a morte (sanidade e loucura), mas seu discurso é algo relaxado, desordenado na forma (devido à ansiedade e desorientação). "Algo", não totalmente, pois poderia ser mais.

O repórter (em português, "relator") perde a objetividade que gostaria de ter como informante, por colocar-se ao lado e até dentro dos personagens. É seu único caminho, para respeitar as verdades humanas.
A questão do relaxamento x tensão é secundária. O principal é que o autor deixa de ser jornalista e ficcionista, e passa a ser um antropólogo urbano.

Anônimo disse...

Li Vampiros deste mesmo autor, lançado ano passado na feira. Me chamou atenção porque sou vidrada em vampiros. Mas, se me decepcionei por um lado - não havia vampiros no livro (ao menos os vampiros tradicionais)me surpreendi positivamente por outro, pois o livro é muito bom. Visceral. Tem vampiros, sim, mas de uma outra estirpe. A leitura prende demais, com análises psicológicas muito bem urdidas, e uma surpreendente costura policial, que leva o leitor à frente, tirando-lhe o fôlego. Não pensei que tivesse autor assim por aqui. Estou curiosa com esse novo livro... Me parece bom, pois antes mesmo de ser lançado - ou relançado - já está provocando polêmica. Senhor Francisco, muito interessante sua análise da obra. Parabéns.

Andréia

Anônimo disse...

Não consegui ler Magalhães. Demais pra mim.

Anônimo disse...

Vidal, explica melhor esse negócio de tensão...

Francisco Antônio Vidal disse...

Espero que tenha ficado claro acima.

Tensão no conteúdo: ansiedade, medo, raiva, desejos frustrados, sexo agressivo. Magalhães deixa o leitor em suspense, enganchado para continuar até o fim: tenso mas lubrificado pela agilidade cinematográfica do relato.

Tensão no discurso(rigidez estrutural): o texto de Magalhães tem uma ordem formal, determinado por seu trabalho jornalístico (até palavras bem literárias, pouco comuns na fala cotidiana), mas as frases do relator parecem mais discurso oral (mais distendido ou relaxado na forma), pela pouca pontuação, grande extensão e despreocupação com a estética da construção das sentenças - para aproximar-se à fala dos personagens.
Vamos ler o livro e ver onde há ou não há tensão.

Anônimo disse...

magalhães é um cara estranho... Ao mesmo tempo que transita pela literatura marginal, pinta como um anjo. Dá pra entender isso? Dá?

Anônimo disse...

Dia propício para o lançamento do livro de Magalhães, cujos personagens sombrios tem tudo a ver com a cor cinza de hoje. Parabéns, Magalhães, por trazer outra vez ao público leitor obra esgotada. Sucesso!!!

Anônimo disse...

Vidal excelente post. Manoel merecia uma análise mais aprofundada. Ainda é pouco, mas dá sinais da diferenciada literatura que ele faz em Pelotas.

Anônimo disse...

Post de bom nível, só não gostei das ilustrações... Nada a ver!

Francisco Antônio Vidal disse...

Anônimo que achou estranha a pintura angelical: não pertence a Magalhães, mas a Carmen Garrez. Já fazia parte da primeira edição do livro. Que ilustração teria sido melhor?
Anônimo que desgostou das figuras do post (nada angelicais): se tiver sugestão, envie. Pode desenhar tb, quem sabe não vira o ilustrador do próximo livro?

Anônimo disse...

A chuva prejudicou o lançamento do livro de Manoel, mas fui lá conferir, e comprei o meu claro. Peguei meu autógrafo, apertei a mão do escritor é fui embora. Já devorei o livro. Pena que é pequeno... Fiquei querendo mais... Vidal, gosto da forma como interages no blog com os comentaristas. Dá dinamismo. Parabéns por seu trabalho. Agora, vamos esperar uma análise maior do livro. O que tens escrito até aqui me agradou, ajudando a desvendar a perturbadora escrita de Magalhães. Um abraço.

Anônimo disse...

Senhor Vidal, aguardamos agora a sua leitura crítica do livro, pois me parece que isso ainda não foi feito, pois suas considerações não me parecem convincentes.

Lucia

Francisco Antônio Vidal disse...

Certamente o livro não foi analisado, pois não havia saído ainda. Foi Manoel que me cedeu gentilmente aqueles parágrafos para esta nota de divulgação.
O objetivo do blogue é mostrar Pelotas, destacando as coisas boas. Isso já foi feito neste post, o que não impede que eu volte com uma análise do livro (seria mais para um blogue literário, mas pode ser feita aqui). Buscarei um ponto de relação com Pelotas e ali aproveitarei de comentar o livro, deixando dúvidas e não certezas, para que os leitores opinem (e não para que concordem necessariamente). Por que eu deveria ser tão convincente, se não estamos num tribunal?
Pessoalmente, espero poder ler proximamente a história de Lobo da Costa em "O abismo na gaveta". Esse texto tocará bem mais o coração dos pelotenses.

Anônimo disse...

De fato, Vidal, O abismo na gaveta é um romance muito bom, mostrando a vida de Pelotas no século XIX, contando a vida de um marginal... Lobo da Costa. Acho a obra de Magalhães particularmente interessante, cujos livros, todos, afinam-se. Fazem retratos de figuras marginais, e Lobo da Costa, nossa maior poeta, foi um autêntico marginal. Se não leste, recomendo.

Arthur - pelotense morando em Veranópolis

Anônimo disse...

Não quis ofênde-lo, senhor Vidal. Quis apenas solicitar que o senhor fosse mais, digamos, objetivo em sua análise. Me perdoe.

Lucia

Francisco Antônio Vidal disse...

Lucia: Não vi ofensa; somente quis mostrar que a finalidade desta nota era estimular as pessoas a lerem o livro ou a opinarem sobre o estilo do escritor. Creio não poder dar uma visão definitiva das coisas (convincente, objetiva, total); o que busco é mostrar tudo o que é interessante em Pelotas e não é mostrado em outros meios. Daí sairá a discussão.
Analisarei esse livro, se for na linha central do blogue (desvendar coisas típicas de Pelotas, que nos ajudem a conhecê-la mais e nos comprometer com sua vida e cultura). Poderei aludir a ele num post sobre outro tema, talvez.
Não li o "Abismo", que está esgotado há anos, mas creio que servirá ainda mais para esse fim (a alusão foi uma indireta para que se pense numa reedição, depois dos Textos Marginais).
É de se notar que esse romance de Magalhães, que se baseia na vida de Lobo da Costa, tem detalhes ficcionais, como observa Ângela Sapper ("Quatro por quatro", UFPel, 2005). Um debate sobre tudo isso será enriquecedor.

Anônimo disse...

Mês passado, pesquisando livros na Livraria Vanguarda, descobri que ela tem alguns exemplares da segunda edição de O Abismo na Gaveta, co-editado pela própria livraria, edição de 2003. Uma dica.

Anônimo disse...

'O Homem que Brigava com Deus' para mim é uma grande obra! Estou lendo ' O Abismo na Gaveta' e estou adorando ! Parabéns Manoel !!!