
O livro de Simões (leia biografia) foi editado em 1910 pela Livraria Universal, hoje extinta (ficava defronte ao Café Aquários, na esquina da Doçaria Pelotense). Sobre a Livraria, leia a nota deste blogue Edição de livros em Pelotas.

É de se notar, na capa colorida (acima à esq.), o logo em que os prédios tradicionais da cidade (a "igreja cabeluda", o Mercado e seu relógio alemão, à direita) parecem soletrar uma frase do mundo pelotense. Leia abaixo o artigo de Luís Borges.
Uma teoria sobre o Cancioneiro Guasca
Luís Borges
Comemora-se em 2010 o centenário da obra considerada o "patinho feio" da produção de Simões Lopes Neto. Diz-se assim porque não é livro autoral, tratando-se de uma recolha folclórica. Desta maneira, quando o Cancioneiro é comparado à ficção do autor, evidentemente, fica menor.
Reconhecido tardiamente como escritor, de inegáveis méritos, talvez só pôde sê-lo plenamente, na medida em que seu projeto originário fracassou: dedicar-se de várias formas às questões educacionais, fosse no exercício do magistério, propondo reformas ortográficas, escrevendo livros didáticos, empenhando-se em campanhas cívico-educacionais, participando dos Tiros de Guerra ou propugnando atenção à higiene.
Na proporção em que foram se esboroando seus ideais, sonhos e até ímpetos de empreendedor, foi o Velho Capitão direcionando-se para o campo literário. Fez compilações do folclore regional gauchesco e dava a seus contos um caráter de registro histórico, sociológico e linguístico do pampa. De tal modo o Simões folclorista/historiador ficou ligado ao Simões literato, que ele saiu em prejuízo tanto na condição de homem dedicado aos estudos folclóricos e históricos quanto à estrita atividade de escritor.

Assim também acontece com o segmento aparentemente menos relevante de sua literatura, enfeixada no Cancioneiro Guasca (1910). Ao levarmos a cabo uma avaliação mais profunda desse livro, podemos perceber em quê e por quê os intelectuais do período se preocupavam tanto com o folclore e a cultura popular.
(...) Se compulsarmos as datas de composição do Cancioneiro Guasca e das Lendas do Sul (1913), por exemplo, podemos ser tentados a não associá-las com a fase mais intensa de sua atividade cívico-educacional, isto é, entre 1904 e 1906, quando realizou suas famosas conferências por diversas cidades do Estado. Ora, 1906 é exatamente o ano em que ele compôs um de seus textos mais famosos, considerado uma de suas obras-primas, o Negrinho do Pastoreio, incorporado indelevelmente ao acervo folclórico.

Nesse sentido, o Cancioneiro (no qual estavam quase todas as lendas que apareceram no livro de 1913) é o mapeamento do gênio popular gauchesco com fito de estabelecer um projeto lítero-ideológico, promotor de um civismo que possibilitasse um novo projeto de nação.
Patinho feio, que nada!
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