quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Minuta ou A La Minuta?

No Brasil se fez costume pedir bifes a cavalo, a pé, à milanesa e... a la minuta? ou à minuta? Ninguém sabe ao certo. Considerando a falta de acordo, até parece que não existe uma forma correta. Há quem acentue (à la minuta), mesmo sem saber o que é uma crase. Em francês existe crase? Essa expressão será, talvez, francesa? Investiguemos este mistério exclusivo do idioma português.

No nosso Café Aquários, por exemplo, o próprio cardápio-mural (não é qualquer restaurante que tem um cardápio-mural) duvida entre um "á la minuta carne" e um "à la minuta frango" (acima). Segue-se o que os fregueses mandam, e todos dizem "quero uma alaminuta". Vejam só que aí o termo ficou substantivado (com elipse do bife).

Mas como isso se escreve? Junto, ou separado? Com ou sem acento? À italiana ou à francesa?

Cada restaurante usa uma forma, dependendo do ouvido, da boa vontade ou dos conhecimentos do idioma. Este é um daqueles casos de pergunta pega-ratão para vestibulares e concursos. É brasileirismo e não está na Wikipédia (ainda). E mesmo que estivesse todos discordariam e apagariam a página.

Agrava-se o caso quando buscamos o plural (essa é para professores de cursinho): são duas minutas, ou duas a la minutas, ou alaminutas? Será com hífen? E o gênero? Quero "uma minuta", ou "um (bife) alaminuta"? Juntando todas as possibilidades, acharíamos dezenas de formas.

Um restaurante da Rua Tiradentes (próximo da Álvaro Chaves) pintou com ousadia na fachada o plural: alaminutas (dir.). Portanto, o singular se deduziria: uma "alaminuta", ou um "bife alaminuta". Mas isso seria escrever de ouvido, colocar por escrito o uso oral.

Resposta do Aurélio

A palavra minuta já existe no português há alguns séculos. É o feminino latino de minutus. Os dois provêm de minus (menor), que origina muitas outras palavras nossas: menos, minuto, miúdo, minúcia, minúsculo, miuçalha, diminuir, diminuto, esmiuçar. Como substantivo, significa: rascunho, algo feito com rapidez, no minuto.

Assim, o latim minutus se traduz ao português como: miúdo, diminuído, diminuto. Esse adjetivo denominou, em vários idiomas ocidentais, uma das divisões menores do tempo (virando então substantivo): o minuto (miudinho, pequeninho). Uma coisa breve, feita rapidamente, também se chama "minuta".

Seguindo o velho Aurélio de 1960 (também o Novo, conhecido como Aurelião, editado em 1975), "à minuta" é a expressão que deve aplicar-se aos pratos de restaurante feitos no momento, na hora do pedido. Assim como encomendamos bifes à milanesa (ao modo milanês), também pediremos filés à minuta (ao modo de uma minuta, de um rascunho, de algo rápido).

A forma inventada no Brasil "a la minuta" saiu por influência do francês: à la minute (feito no minuto). Para quem não sabe francês, minute é feminino. Aurélio (em 1960) já tentava corrigir essa cópia literal, registrando somente "à minuta", forma não usada pelo povo brasileiro. Ele escreveu, no verbete "minuta 2", que a forma feminina afrancesada seria "absurda", nessa expressão gastronômica. O dicionarista sugeria, assim, que a tradução mais correta seria "ao minuto", ainda mais distante do uso popular, mas não a registrou nem mencionou.

Apareceram, no caminho, outras versões ilógicas e deselegantes: a variação aglutinada "alaminuta", a italianizada "alla minuta", a afrancesada "à la minuta" e a mais absurda "ala minuta". Portanto, temos duas opções possíveis, com o mesmo significado:
  • ou dizemos em francês: à la minute,
  • ou em português: à minuta.
Ambas formas se aplicam tanto no plural como no singular: um bife à minuta ou vários bifes à minuta. Quando se tratar do substantivo "minuta", pode aplicar-se o gênero feminino, mesmo que os bifes ou filés estejam subentendidos ("quero uma minuta", ou "uma minuta de filé").

Se a coisa a ser comida estivesse no feminino, a expressão se manteria a mesma: uma sardinha à minuta, vários linguados à minuta, uma ou duas fatias de presunto à minuta. Foi a omissão desses deliciosos substantivos que nos levou à confusão: eles é que devem ser flexionados - os ingredientes (o filé, a picanha, o frango) - e não o modo de prepará-los.
Fotos de F. A. Vidal

3 comentários:

Anônimo disse...

Adorei esta forma de explicação para esse prato tão maravilhoso !!! Ótimo !!!

Anônimo disse...

deu fome de olhar essas fotos ainda mais quem tá de estomago vazio oh dó hein kkkkkk

Anônimo disse...

Parabéns pela explicação!
Alexandre Maia, Curitiba/PR.